apalavreado

adj.m. 1.aquele que não consegue descrever com palavras, 2. eu, 3. você, 4. os humanos em geral
Mostrando postagens com marcador Série Serial. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Série Serial. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Terceira Série

Sete horas. Horário de ir para o colégio.
Sua cabeça ainda latejando pensava: último ano de tortura... Mas seria capaz? Capaz de dissimular e suportar as perguntas e, pior, os olhares acusadores de seus colegas? Seu estômago ainda embrulhado...
Cogitou não ir para a aula, mas isso tornaria tudo tão mais óbvio... Com os olhos inchados e as marcas ainda no seu rosto contemplou a escola sob o calor do sol.
Cruzou a porta e uma mão fria pousou sobre seu ombro. Faltou-lhe coragem para ver quem era, apenas sentiu a pessoa se aproximar e dizer em seu ouvido palavras de amor. Virou-se assustado e contemplou o rosto que jurara nunca mais ver.
Os olhos nem verdes e nem azuis da garota e seu nariz arrebitado... Olhou para ela e virou a cabeça como um simples ato de despreso.
Escureceu como amanheceu e o espírito da moça ainda era vivo na sua lembrança

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Two Serial

Chovia forte.
As grossas gotas de água o machucavam. Ou era essa a desculpa que ele inventava para as feridas em seu rosto.
Feridas que ele jurava serem físicas, mas seu rosto permanecia imaculado.
Pensar na madrugada anterior o fizera acreditar que pegar uma pneumonia e morrer era a melhor solução. Como o começo do outono, que não sabe se é frio ou quente, sua mente oscilava entre o remorso e a admiração. No momento em que as gotas batiam nele, o remorso era sua salvação...
Saíra da praia com a sensação de que fizera o que era certo. Parou. Teve a impressão de estar sendo seguido. Olhou para trás. Nada viu naquela escuridão. Entrou em uma padaria para disfarçar. Teve a certeza então, depois de muito pensar, que palavras podiam matar.
Sentou-se e pediu dois pratos de cereal.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Serial One

A carcaça estava sobre a areia quente e, o sol nascente iluminava o assassino. Não havia sinal de sangue ou de ultra violência, mas existem muitas outras formas de se matar uma pessoa.
Incontáveis conchas espalhadas por aquele chão arenoso pouco iluminado davam ao homicida a impressão de estar refletido em todos os lugares. Qualquer um poderia vê-lo. Como uma criança medrosa em uma casa de espelhos, ele tremia. Tremia em pensar nas conseqüências do que acabara de fazer. Do crime que cometera.
Hesitante, aproximou-se do corpo estendido e segurou, através de sua luva outrora preta, aquelas gélidas mãos. A discussão tinha sido intensa. Agachou-se e deixou que algumas lágrimas escorressem pelo seu rosto. Escondeu seu rosto em suas mãos e isso fez com que ele se manchasse de vermelho.
Quando ergueu a face, uma gotícula de água salgada tremeu em seu queixo pontudo e caiu na ponta do perfeito nariz arrebitado da falecida. A onda batia em seus pés, a onda, a onda. Em seus pés.Com muita dificuldade conseguiu dar alguns passos em direção ao mar, aonde alcançaria a liberdade. Abriu os braços e sentiu o vento levar o que sobrara de seus cabelos após as últimas conturbadas horas. Lavou-se nas frias águas matutinas durante um bom tempo, olhou uma última vez para o corpete sem vida e percebeu a beleza do ato que cometera.