-As coisas parecem diferentes.
-Diferentes, só.
-Não sei... Só estão diferentes.
-Tudo bem, paro de falar "diferente".
-Mas não sei, aconteceram tantas coisas e nem todas eu pude acompanhar. Parece que estou assistindo um filme...
-Mas não um filme bom... Um filme que não prende a gente, um filme que acaba e nós continuamos os mesmos, um filme que não nos muda, não nos altera, não nos ajuda e não nos atrapalha. Como se eu estivesse só vendo, como se eu não fizesse parte daquele mundo e daquilo que acontece. Não me sinto pertencente à minha própria vida. Como isso? É um sentimento tão esquisito... Parecer que tudo o que acontece não diz respeito a mim, ou talvez até diga, mas não me afeta porque simplesmente não sei, porque ninguém me fala, ninguém de da um choqualhão, ninguém ou melhor, nada me acontece.
-Dizem que acontece muito comigo... Como assim todos sabem disso, exceto eu? Isso é impossível, é como se eu fosse de fato personagem de um livro ou de um filme. E um idiota, né, afinal tudo - teoricamente - acontece ao meu redor, todos sabem, menos eu.
-Não posso ser tão tapada assim. Você até perdeu a voz.
apalavreado
adj.m. 1.aquele que não consegue descrever com palavras, 2. eu, 3. você, 4. os humanos em geral
segunda-feira, 19 de julho de 2010
terça-feira, 20 de abril de 2010
Retratos
Tantas cenas...
dezenas...
Tantas cenas...
- Maisena, MAISENA
Tantas centenas
- Pra Sé!
Tantas.
- Tantas gente....
De um lado a menina, com o fone no ouvido, encosta a cabeça no vidro do ônibus. O leve batuque que o fone faz em contato com o vidro segue o ritmo do ônibus...
- Mas será que segue o da música?
Na calçada, um casal se olha com um aparente rancor. Suas falas são inaldíveis aparentemente até para eles que, no segundo seguinte, se beijam.
- Mas será que com paixão?
O cobrador se diverte dobrando o jornal que pegara num cruzamento anterior. Uma senhora oferece uma caneta para ele fazer as palavras cruzadas e, ele, encabulado, finge as resolver.
- Mas será que um dia alguém terá, finalmente, coragem de ao menos tentar lhe ensinar a ler e escrever?
A senhora pede a um adolescente licença para sentar
- Mas será que isso tapará suas dores?
O um adolescente bate a perna ao sair e derruba um livro. Sai do ônibus e o ônibus logo anda, sem que eu possa devolver seu objeto.
- Mas será que ele se importa?
Analiso o livro distraidamente. Uma bonita edição de Hamlet.
Sinto saudades da minha época de Hamlet. Quero dizer, da época em que lia Hamlet por ler e não por ser obrigado.
Sorri.
Uma criança. Uma linda criança me observava.
Seus olhos eram milhões de vezes mais atentos que os meus. Deviam registrar coisas maravilhosas que eu não via.
Invejo essa criança até hoje....
- Mas será que vale a pena?
Ser criança é um trabalho tão difícil... Aquela criança sabe bem como é.
domingo, 11 de abril de 2010
what?
Parece que está a cada dia mais difícil escrever aqui. Não vou mentir e dizer que é culpa da faculdade ou do raio que o parta. A culpa é minha mesmo. Acho que não tenho mais a paciência que tinha para escrever longa ou brevemente sobre alguma coisa... Já bastam os trabalhos acadêmicos, resenhas e etc. Mas, não sei, parte de mim sente falta... Falta do que, afinal? Acho que de expressar o mundo - tão errado mundo - de forma pseudo-literária, mas sempre crítica. às vezes penso: queria voltar a escrever... Nesses últimos anos parece que mudei tanto que a escrita talvez já não me faça tanta companhia. O que é algo bem triste, já que, então, fico só; só eu e minhas leituras. Talvez a questão seja apenas o local, talvez eu não pertença a esse lugar... Não pertencer perto do seu,longe de ser algo ou alguém... Mas acho que a questão é: se eu não sei ser, porque ainda sou?Estou longe de ser. Não pertenço a esse lugar... tão perto do ser.
não sou.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Missya
Happy new year's day
2010 não parece okay.
That's not right
E a cada dia percebo que tenho mais capacidade de lidar e combater isso
Feliz 2010, pessoal. Prometo tentar voltar a escrever.
Não por vocês, claro, sempre fui egoísta...
Por mim mesma...
Um beijo para vocês e sinto saudades de postar algo decente aqui, sabia?
domingo, 27 de dezembro de 2009
Árdua Ditadura
Do homem deitado sobre o capô daquele carro eu não me lembrava sequer do nome. Das pessoas a minha volta eu sequer queria saber o nome, só sabia que aquela situação muito me incomodava. Tentava me desviar dos flashes das máquinas de tantos jornalistas que por mais que quisessem relatar que estava me defendendo, defendendo a minha integridade física e moral, iam me taxar de criminosa. Começava a imaginar as manchetes do jornal do dia seguinte e entrava em pânico.
Eles seguravam meus pulsos fortemente contra meu peito e me prensavam contra o carro. Estava começando a me sentir invadida e a achar que aquilo não era procedimento padrão. Quando todos dispersaram, um deles me levou a um carro e disse aos outros que ia fazer uma paradinha antes de irmos ao nosso destino final. Todos riram. Comecei a tremer de medo.
Estava algemada e assim ele me manteve, afinal, ele vira o que tinha acontecido com o último babaca que tentara esse tipo de coisa. Ele fez coisas inimagináveis comigo e eu só conseguia pensar o quanto queria matá-lo. Por estar me estuprando, mas - pode me chamar de falsa, podem duvidar de mim - estava ainda mais brava por ele e todos seus amigos terem estuprado não apenas a minha liberdade, mas a de todos os cidadãos dessa nação.
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
És dor.
Ela entrou pela porta e a bateu sem nem pensar em trancá-la. Entrou no quarto tomando a mesma atitude e, se despindo, entrou no chuveiro. A água quente - absurdamente quente - ia escorrendo pelo corpo dela e ela, apoiando-se nas gélidas paredes do chuveiro, escorregou-se para o chão.
Com as pernas pressionadas contra o peito, ela ficou, estagnada. De olhos fechados e com as mãos os fechando ainda mais, ela parecia perdida. A água estava muito quente e, apesar de a estar ferindo, ela não queria se mover. Ficava lá, debaixo daquele chuveiro forte, encostada na parede gelada de seu banheiro. Assim ficou por horas.
Não sei dizer o que ela estava pensando, mas mesmo naquela posição frágil e vulnerável, ela parecia forte. Isso me impediu de me aproximar dela, pois ela parecia querer superar tudo aquilo sozinha. Eu deixei.
No dia seguinte, me chamando de idiota, bati a cabeça contra o espelho e, deitado no chão, quis morrer por acreditar - por minutos, minutos que poderiam tê-la salvo - que qualquer ser humano pudesse suportar tamanha dor sozinho.
domingo, 20 de dezembro de 2009
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