O ônibus estava parado naquele trânsito corriqueiro dos dias da semana lá pelas 18 horas. Era normal. O ônibus lotado, pessoas se apertando, olhares atravessados. Nada parecia diferente.
Do lado de fora uma criança observava o ônibus. Ela esperava sua mãe fechar a loja, observando a palma da mão de uma moça encostada na janela do ônibus.
Era a janela antes da última fileira de acentos.
Tinha um homem logo atrás da mulher. A criança não via nada, exceto a mão espalmada da moça, sua silhueta e a do homem. Estava muito escuro já e a luz de dentro do ônibus estava bem mais fraca que o normal.
A criança podia distinguir poucas coisas, mas pelo que pode ver o homem tinha uma expressão de felicidade e dor.
A mãe pegou a criança pela mão, mas a criança não parecia querer ir embora. Sem olhar para o que seu filho observava a mãe o arrastou para dentro do ônibus.
A rua estava bem mais silenciosa, pensou. A mãe colocou a criança no colo e sentou quando lhe deram lugar. A criança olhava para o fundo do ônibus e viu a mulher da mão na janela. Até hoje a criança acha que viu uma lágrima.
Quando a mulher reparou na criança, tentou desfarçar, mas só conseguia pensar e rezar para que a criança não descobrisse que aquilo era um estupro no meio de um ônibus lotado.
O desconhecido é mais fácil de se notar,mas o porquê só a criança parecia se preocupar era algo que a mulher não pode entender, pelo menos até seu suicídio, no dia seguinte.