apalavreado

adj.m. 1.aquele que não consegue descrever com palavras, 2. eu, 3. você, 4. os humanos em geral

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

I

É foda quando nós mesmos esquecemos da nossa própria existência. É horrível quando tudo parece mais importante que você lembrar de respirar. É... Bem tenso. Vou ser sincero: nunca escrevi um texto que não fosse uma redação pro colégio, então, sei lá. Que bosta. Queria poder colocar em palavras alguma das coisas que se passam pela minha mente, mas montar um diário é algo tão... brega.
Acontece que recentemente eu acabei esquecendo da minha existência. E o pior não é esse período de esquecimento, mas quando você percebe que esqueceu e que provavelmente perdeu períodos preciosos da sua vida que será muito difícil conseguir de volta. Se ser ignorante é algo ruim, ignorar sua existência é pior - digo isso, pois já fui ambos os tipos. Mas quando você cai na ignorância, você não cai de propósito e você só percebe quando sai dela. Não que eu me ache um ser sem ignorância agora, mas enfim...
Sair desse momento de não-consciência-de-mim é doloroso. Alguns dizem que isso se chama maturidade, Kant chama de maioridade. Não é a primeira vez que saio da ignorância, mas tenho oscilações muito freqüentes. Queria ter uma noção eterna de quem eu sou eu. Na verdade, na verdade mesmo queria ser o que se não é.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Entra-sai

ele saiu. ele entrou.
ele sai. ele entra.
ele entra entre o mundo
ele sai de entre os muros.
ele se perde dentro de tudo.
ele se encontra no meio de nada.
ele se acha tudo.
ele não acha nada.
ele percebe o mundo.
ele nada quer perceber.
eles são nada no tudo.
e são tudo no nada.
eles querem ser diferentes.
mas são sempre iguais.
eles querem ser alguém.
mas quanto mais querem.
mais se tornam





nulos.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Que romântico

Um do lado do outro, livros abertos, nem sabiam que não estavam sozinhos naquele ônibus vazio.
Ela não imaginava que tinha alguém do lado dela até que se moveu desconfortavelmente no banco depois de uma certa passagem de um romance e seu cotovelo encostou no braço dele.
Eles se entreolharam por um breve momento, ela pediu desculpas e ele acentiu com a cabeça. Voltaram ambos pros seus livros.
Eles desceram no mesmo ponto, se olharam mais uma vez,olharam para seus livros, os abraçaram e foram embora.

domingo, 13 de setembro de 2009

Mensagem de boas-vindas àquela com quem nunca me dei bem

A primavera está aqui, ao meu lado. O cheiro da flor, que para mim já está morta há tempos, invade as minhas narinas. Não sei por quanto tempo vou aguentar mais essa primavera.
Não há nenhuma beleza notável em um dia primaveril que não seja notado em um dia de inverno. Para mim a primavera é uma desculpa pras pessoas acharem a esperança. E a esperança me deixou há muito de ser útil.
A primavera me faz pensar, a primavera me traz enxaquecacas: a primavera me faz mal. Eu quero o vento gélido do inverno que me faz sentir que não sou a única a ser fria assim. A alegria das pessoas na primavera me soa até como uma alienação. O que a primavera tem de tão especial?
A esperança não existe mais.

domingo, 6 de setembro de 2009

Um poema qualquer

E quando o dia amanheceu
e eu não tive forças pra levantar
Olhei, do sofá, para o céu

retrato.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Cotidiano

O ônibus estava parado naquele trânsito corriqueiro dos dias da semana lá pelas 18 horas. Era normal. O ônibus lotado, pessoas se apertando, olhares atravessados. Nada parecia diferente.

Do lado de fora uma criança observava o ônibus. Ela esperava sua mãe fechar a loja, observando a palma da mão de uma moça encostada na janela do ônibus.

Era a janela antes da última fileira de acentos.

Tinha um homem logo atrás da mulher. A criança não via nada, exceto a mão espalmada da moça, sua silhueta e a do homem. Estava muito escuro já e a luz de dentro do ônibus estava bem mais fraca que o normal.

A criança podia distinguir poucas coisas, mas pelo que pode ver o homem tinha uma expressão de felicidade e dor.

A mãe pegou a criança pela mão, mas a criança não parecia querer ir embora. Sem olhar para o que seu filho observava a mãe o arrastou para dentro do ônibus.

A rua estava bem mais silenciosa, pensou. A mãe colocou a criança no colo e sentou quando lhe deram lugar. A criança olhava para o fundo do ônibus e viu a mulher da mão na janela. Até hoje a criança acha que viu uma lágrima.

Quando a mulher reparou na criança, tentou desfarçar, mas só conseguia pensar e rezar para que a criança não descobrisse que aquilo era um estupro no meio de um ônibus lotado.

O desconhecido é mais fácil de se notar,mas o porquê só a criança parecia se preocupar era algo que a mulher não pode entender, pelo menos até seu suicídio, no dia seguinte.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Justiça

Acho que ela está na vida cotidiana, mas só fazemos jus a ela quando ela é içada.