A campainha tocava incessantemente.
Era uma velha brincadeira de sua família. Tocar muitas e continuadas vezes a campainha daquela casa onde seus netos aprenderam a fazer o famoso ‘bolo peteleco’. A avó gritava do taque: “Já vai! Já vai!” e continuavam a tocar. Com um sorriso no rosto, ela foi atender a porta.
Secando as mãos em seu avental e jogando para trás o cabelo que há muito não recebia cuidados, foi caminhando ao seu passo enquanto a campainha tocava. A mão, ainda úmida, segurou as grades do portão de sua casa e abriu a porta (com um rangido) ao mesmo tempo em que abriu seu mais doce sorriso.
A campainha parou de tocar e a senhora abraçou seu filho que não via há uma semana e seus netos saudosos. A campainha foi tocada mais uma vez e o lábio da avó encostou a testa de sua neta mais nova.
apalavreado
adj.m. 1.aquele que não consegue descrever com palavras, 2. eu, 3. você, 4. os humanos em geral
domingo, 6 de abril de 2008
domingo, 30 de março de 2008
3º
Nenhum ano foi mais desunido que o nosso... Até que manhã e tarde se uniram, mas os grupos não falavam com outros grupos. E mais, chegavam a se odiar. Mas sabe... Eu não mudaria nada. Passaram-se três anos e eu não mudaria absolutamente nada. Nenhuma briga... Não deixaria de fazer nenhuma prova ou simulado ou PG. Não perderia essa chance de rir, de sorrir. Não mudaria o lugar em que passo meus intervalos de vinte e cinco minutos, ou melhor, vinte, já que o sinal sempre bate antes... Não mudaria nada. A ansiedade do retorno de um amigo, de um sonho perdido e de outro conquistado. Todos os tapas na cara e os carinhos (metaforicamente ou não)... Não mudaria nada. Todos os surtos e os pedidos de silêncio... Todas as vezes em que bati a cabeça no fundo do poço, todas as lágrimas derramadas e amizades conquistadas. Não mudaria nem aquelas que perdi...
quarta-feira, 19 de março de 2008
Questão de óptica
A árvore parecia grande, o céu enorme e a vida minúscula. E tudo dependia de um traço seu que se saísse torto nenhuma borracha apagaria... Uma hora havia passado e sua cabeça começava a pesar... Os pensamentos voavam e nada mais fazia sentido. Traçou a reta mais precisamente que conseguiu e recebeu um zero, pois não estava perfeito o suficiente.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Serial One
A carcaça estava sobre a areia quente e, o sol nascente iluminava o assassino. Não havia sinal de sangue ou de ultra violência, mas existem muitas outras formas de se matar uma pessoa.
Incontáveis conchas espalhadas por aquele chão arenoso pouco iluminado davam ao homicida a impressão de estar refletido em todos os lugares. Qualquer um poderia vê-lo. Como uma criança medrosa em uma casa de espelhos, ele tremia. Tremia em pensar nas conseqüências do que acabara de fazer. Do crime que cometera.
Hesitante, aproximou-se do corpo estendido e segurou, através de sua luva outrora preta, aquelas gélidas mãos. A discussão tinha sido intensa. Agachou-se e deixou que algumas lágrimas escorressem pelo seu rosto. Escondeu seu rosto em suas mãos e isso fez com que ele se manchasse de vermelho.
Quando ergueu a face, uma gotícula de água salgada tremeu em seu queixo pontudo e caiu na ponta do perfeito nariz arrebitado da falecida. A onda batia em seus pés, a onda, a onda. Em seus pés.Com muita dificuldade conseguiu dar alguns passos em direção ao mar, aonde alcançaria a liberdade. Abriu os braços e sentiu o vento levar o que sobrara de seus cabelos após as últimas conturbadas horas. Lavou-se nas frias águas matutinas durante um bom tempo, olhou uma última vez para o corpete sem vida e percebeu a beleza do ato que cometera.
Incontáveis conchas espalhadas por aquele chão arenoso pouco iluminado davam ao homicida a impressão de estar refletido em todos os lugares. Qualquer um poderia vê-lo. Como uma criança medrosa em uma casa de espelhos, ele tremia. Tremia em pensar nas conseqüências do que acabara de fazer. Do crime que cometera.
Hesitante, aproximou-se do corpo estendido e segurou, através de sua luva outrora preta, aquelas gélidas mãos. A discussão tinha sido intensa. Agachou-se e deixou que algumas lágrimas escorressem pelo seu rosto. Escondeu seu rosto em suas mãos e isso fez com que ele se manchasse de vermelho.
Quando ergueu a face, uma gotícula de água salgada tremeu em seu queixo pontudo e caiu na ponta do perfeito nariz arrebitado da falecida. A onda batia em seus pés, a onda, a onda. Em seus pés.Com muita dificuldade conseguiu dar alguns passos em direção ao mar, aonde alcançaria a liberdade. Abriu os braços e sentiu o vento levar o que sobrara de seus cabelos após as últimas conturbadas horas. Lavou-se nas frias águas matutinas durante um bom tempo, olhou uma última vez para o corpete sem vida e percebeu a beleza do ato que cometera.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Sete por Sete
Insuportavelmente ele ergueu a mão e perguntou.
Uma pergunta qualquer, uma pergunta retórica qualquer.
Como aquela que faria num dia frio.
Que pelo menos era frio pra ele.
E escuro também, parecia mais um sonho...
Não absorveu nada do que acontecia nele
Insuportavelmente se perguntou por que deveria morrer.
Uma pergunta qualquer, uma pergunta retórica qualquer.
Como aquela que faria num dia frio.
Que pelo menos era frio pra ele.
E escuro também, parecia mais um sonho...
Não absorveu nada do que acontecia nele
Insuportavelmente se perguntou por que deveria morrer.
domingo, 27 de janeiro de 2008
?!
Quando me dá na telha eu saio de casa e vou até o “não empurra”. Dou duas ou três voltas ao redor dele e subo de volta a rua Manoel da Nóbrega.
Próximo ao monumento de Brecheret existe um monumento em homenagem a fundação de São Paulo. Lá tem uma pichação que diz: “Maluf pilantra”.
Não existe melhor jeito de exprimir arte, não é mesmo? Que seria melhor do que usar a arte alheia como degrau?
Arte e política são duas coisas muito perigosas.
Próximo ao monumento de Brecheret existe um monumento em homenagem a fundação de São Paulo. Lá tem uma pichação que diz: “Maluf pilantra”.
Não existe melhor jeito de exprimir arte, não é mesmo? Que seria melhor do que usar a arte alheia como degrau?
Arte e política são duas coisas muito perigosas.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Vida Insatisfeita
(texto velho... de novo)
O ocaso que por acaso assisti em uma praça próxima a minha casa em um dia de sol e vento era a paisagem de muitos casos da literatura universal. No céu, uma morada acolhedora, as nossas almas realmente vivem. Os raios avermelhados que se abaixavam cada vez mais eram como sinais de vida. Como se dissem que não somos realmente nós, que nunca nos esforçamos para sermos nós mesmos, que sempre deixamo-nos levar por comentários simples.
As nuvens de algodão puro brincavam como pequenas crianças tentando alegrar os preocupados e pensativos adultos. O amarelo predominante guardava todas as almas na sua grande morada. Protegia-as. O tempo foi passando e agora, o vermelho mostrado na casa celeste trazia a sensação de incrível tristeza, como se uma guerra tivesse começado, drasticamente. As cigarras que cantavam ao fundo anunciavam o início da nova era.
Como seria esta nova era? Se boa, se ruim somente o tempo diria, mas pelo que ocorreu logo após diria que foi péssima, De repente um vento forte soprou e as folhas das árvores despencaram. Uma caiu em minha mão e ela era..
Noite. Era escura. Tão escura... Seria realmente uma folha? A morada das almas estaca totalmente negra. Só após algum tempo de observação é que foram surgindo pontos pacíficos em um mundo em que ninguém se conhece e todos têm medos e aflições. Logo esses pontos se mutiplicaram.
Ao raiar do novo dia descubro que a suposta folha era na realidade uma flor. Ao sair de casa com a mais bela criação das almas senti-me feliz. Aquele sinal que me mandaram avisando que a guerra acabara. E depois dessa época de trevas, o cheiro do orvalho (ou o suor de tantas almas) juntou-se ao cantar dos pássaros que junto com a flor anunciavam a nova era.
A flor não sobreviveu. A guerra recomeçou no fim daquele dia em que tudo parecia maravilhoso. Parece que como aqui, as almas celestes nunca estão satisfeitas com sua vida. Mesmo que esta parecesse tão perfeita quanto um pôr-do-sol.
O ocaso que por acaso assisti em uma praça próxima a minha casa em um dia de sol e vento era a paisagem de muitos casos da literatura universal. No céu, uma morada acolhedora, as nossas almas realmente vivem. Os raios avermelhados que se abaixavam cada vez mais eram como sinais de vida. Como se dissem que não somos realmente nós, que nunca nos esforçamos para sermos nós mesmos, que sempre deixamo-nos levar por comentários simples.
As nuvens de algodão puro brincavam como pequenas crianças tentando alegrar os preocupados e pensativos adultos. O amarelo predominante guardava todas as almas na sua grande morada. Protegia-as. O tempo foi passando e agora, o vermelho mostrado na casa celeste trazia a sensação de incrível tristeza, como se uma guerra tivesse começado, drasticamente. As cigarras que cantavam ao fundo anunciavam o início da nova era.
Como seria esta nova era? Se boa, se ruim somente o tempo diria, mas pelo que ocorreu logo após diria que foi péssima, De repente um vento forte soprou e as folhas das árvores despencaram. Uma caiu em minha mão e ela era..
Noite. Era escura. Tão escura... Seria realmente uma folha? A morada das almas estaca totalmente negra. Só após algum tempo de observação é que foram surgindo pontos pacíficos em um mundo em que ninguém se conhece e todos têm medos e aflições. Logo esses pontos se mutiplicaram.
Ao raiar do novo dia descubro que a suposta folha era na realidade uma flor. Ao sair de casa com a mais bela criação das almas senti-me feliz. Aquele sinal que me mandaram avisando que a guerra acabara. E depois dessa época de trevas, o cheiro do orvalho (ou o suor de tantas almas) juntou-se ao cantar dos pássaros que junto com a flor anunciavam a nova era.
A flor não sobreviveu. A guerra recomeçou no fim daquele dia em que tudo parecia maravilhoso. Parece que como aqui, as almas celestes nunca estão satisfeitas com sua vida. Mesmo que esta parecesse tão perfeita quanto um pôr-do-sol.
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