apalavreado

adj.m. 1.aquele que não consegue descrever com palavras, 2. eu, 3. você, 4. os humanos em geral

sábado, 14 de junho de 2008

Ansiedade

Suas pernas tremiam, seu sorriso não mais sorria... Ele se aproximou, afastou seus cabelos de seu pescoço e com aquela gélida mão o segurou carinhosamente. Arrepio, ainda ansiosa. Ele a encarou profundamente e ela sustentou o olhar corajosamente. Ele sorriu e ela suspirou. Ele desviou o olhar e ela se decepcionou. Ele ainda segurava seu pescoço. Ela ainda ansiosa. Ele a beijou como nunca beijara ninguém. E se separaram. E nunca mais se viram. Ele ainda tem mãos geladas e ela ainda é ansiosa.

sábado, 31 de maio de 2008

Noite clara, dia escuro

Ela olhava para o céu, sua cabeça lindamente apoiada sobre o travesseiro de grama verde. Pelo menos era o que ele via. Uma pena caiu em sua face.
Uma mão caiu sobre a mesma e retirou-a. Não sem antes fazer cócegas na menina. Um espirro. Um sorriso. Uma risada. E um beijo.
Silêncio.
Nem uma palavra.
O dia nasceu.
Duas palavras.
O dia escureceu.
Tudo acabou.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Cai chuva do céu iluminado

A chuva caía e a marginal já se enchia. Estourando de alegria, a pequena criança corria atrás da bola: suas pernas pareciam pesar, sua calça a molhar soava como uma triste música de fim de tarde.
O sol refletia de forma vermelho-alaranjada a sombra incerta da criança. Assemelhava-se com sangue. A música ainda soava e a bola não pulava mais, era apenas levada pela correnteza. A criança tentava a todo o custo manter as pesadas e molhadas pernas no chão, mas rapidamente foi levada. Sua sombra desapareceu, mas o sol continuou a iluminar todo o dia neste horário o local aproximado da morte da alegria do mundo.
E mais uma vez nada disso apareceu no jornal. A única coisa que apareceu foi o arco-íris "duplo".

domingo, 6 de abril de 2008

Em Família

A campainha tocava incessantemente.
Era uma velha brincadeira de sua família. Tocar muitas e continuadas vezes a campainha daquela casa onde seus netos aprenderam a fazer o famoso ‘bolo peteleco’. A avó gritava do taque: “Já vai! Já vai!” e continuavam a tocar. Com um sorriso no rosto, ela foi atender a porta.
Secando as mãos em seu avental e jogando para trás o cabelo que há muito não recebia cuidados, foi caminhando ao seu passo enquanto a campainha tocava. A mão, ainda úmida, segurou as grades do portão de sua casa e abriu a porta (com um rangido) ao mesmo tempo em que abriu seu mais doce sorriso.
A campainha parou de tocar e a senhora abraçou seu filho que não via há uma semana e seus netos saudosos. A campainha foi tocada mais uma vez e o lábio da avó encostou a testa de sua neta mais nova.

domingo, 30 de março de 2008

Nenhum ano foi mais desunido que o nosso... Até que manhã e tarde se uniram, mas os grupos não falavam com outros grupos. E mais, chegavam a se odiar. Mas sabe... Eu não mudaria nada. Passaram-se três anos e eu não mudaria absolutamente nada. Nenhuma briga... Não deixaria de fazer nenhuma prova ou simulado ou PG. Não perderia essa chance de rir, de sorrir. Não mudaria o lugar em que passo meus intervalos de vinte e cinco minutos, ou melhor, vinte, já que o sinal sempre bate antes... Não mudaria nada. A ansiedade do retorno de um amigo, de um sonho perdido e de outro conquistado. Todos os tapas na cara e os carinhos (metaforicamente ou não)... Não mudaria nada. Todos os surtos e os pedidos de silêncio... Todas as vezes em que bati a cabeça no fundo do poço, todas as lágrimas derramadas e amizades conquistadas. Não mudaria nem aquelas que perdi...

quarta-feira, 19 de março de 2008

Questão de óptica

A árvore parecia grande, o céu enorme e a vida minúscula. E tudo dependia de um traço seu que se saísse torto nenhuma borracha apagaria... Uma hora havia passado e sua cabeça começava a pesar... Os pensamentos voavam e nada mais fazia sentido. Traçou a reta mais precisamente que conseguiu e recebeu um zero, pois não estava perfeito o suficiente.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Serial One

A carcaça estava sobre a areia quente e, o sol nascente iluminava o assassino. Não havia sinal de sangue ou de ultra violência, mas existem muitas outras formas de se matar uma pessoa.
Incontáveis conchas espalhadas por aquele chão arenoso pouco iluminado davam ao homicida a impressão de estar refletido em todos os lugares. Qualquer um poderia vê-lo. Como uma criança medrosa em uma casa de espelhos, ele tremia. Tremia em pensar nas conseqüências do que acabara de fazer. Do crime que cometera.
Hesitante, aproximou-se do corpo estendido e segurou, através de sua luva outrora preta, aquelas gélidas mãos. A discussão tinha sido intensa. Agachou-se e deixou que algumas lágrimas escorressem pelo seu rosto. Escondeu seu rosto em suas mãos e isso fez com que ele se manchasse de vermelho.
Quando ergueu a face, uma gotícula de água salgada tremeu em seu queixo pontudo e caiu na ponta do perfeito nariz arrebitado da falecida. A onda batia em seus pés, a onda, a onda. Em seus pés.Com muita dificuldade conseguiu dar alguns passos em direção ao mar, aonde alcançaria a liberdade. Abriu os braços e sentiu o vento levar o que sobrara de seus cabelos após as últimas conturbadas horas. Lavou-se nas frias águas matutinas durante um bom tempo, olhou uma última vez para o corpete sem vida e percebeu a beleza do ato que cometera.